quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Andam abusando do direito de escrever no painel traseiro de carrinhos e carrões.



Andam abusando do direito de escrever no painel traseiro de carrinhos e carrões. Abusam tanto, que eu me divirto tanto. Ou me aborreço muitíssimo. Quando avisto de longe, um carro, com uma fraseologia ambulante, acelero para chegar mais perto: - “fala carro, que eu lhe escuto como um ser falante.” Que você não é, mas convencionaram que fosse.

E os carros, esses dizem coisas que os seus donos gostariam de dizer, mas não encontraram espaço em outro lugar. Gente que ainda não entrou na era do www. Tão fácil: um clic e tem-se um blog circulando na WEB. E com ele o direito de dizer o que se sabe, o que se pensa, o que se quer. Mas existe ser movente que ainda prefere o vidro traseiro do carro: uma resumição só.

Dia após dia, mês após mês, ano após ano, há gente dizendo a mesma coisa, e há gente lendo a mesma coisa. Com uma desvantagem: lemos e não podemos opinar, compartilhar ou discordar. Fiquei mais de ano, com um vizinho confirmando, todos os dias, que “batatinha quando nasce esparrama pelo chão” e a batatinha nunca cresceu e nunca parou de esparramar-se, até o dia em que ele mudou-se daqui e foi esparramar batatas em outro arraial. Singelo, não?

Mas há situações mais graves. Por exemplo: o que significa um adesivo com os dizeres: “Propriedade exclusiva do Senhor Jesus.” Significa que o Senhor Jesus é o dono do carro, ou é o dono da vida de quem possui o carro?

Se fôr da vida, seria melhor escrever no coração. Se fôr do carro, a coerência exigiria que se entregasse a chave, para toda e qualquer pessoa, que do veículo, necessitasse. Um vizinho doente - sem carro para se locomover até o hospital? Poderia usar esse - que é propriedade exclusiva do Senhor Jesus. Um mendigo cansado, carregando seus trapos em direção ao sul? Teria todo o direito de pedir que o levassem até a cidade mais próxima, utilizando-se da propriedade exclusiva do Senhor Jesus. Simples assim.

Porque é isso que faria Jesus. Onde já se viu Jesus negando a um discípulo precisado, o direito ao uso do seu jumentinho, se jumentinho Ele tivesse possuído? Não possuiu. Para a entrada triunfal em Jerusalém, tomou um emprestado, e o devolveu, depois, ao verdadeiro dono.

Andam abusando do direito de escrever sobre Jesus no painel traseiro de carrinhos e carrões. Uma frase muito em moda: “Deus é fiel”. Essa é a escolha de nove entre dez modelos de carros novos. Como se a fidelidade de Jesus dependesse da conta bancária do cidadão que pôde adquirir a máquina. E com tal, sub-entende-se que aquele que só pôde comprar um Uno velhinho, não pôde contar com a fidelidade de Jesus. Que essa é prerrogativa de quem tem modelos mais modernos e sofisticados.

A fraseologia dos religiosos, deixa-me com suor nas axilas, tão agitada me torno. Fico como se tivesse cumprido o percurso da São Silvestre, mil vezes, com a língua de fora, sem olhar para trás. Meu Deus, para onde irei eu, tendo que guardar comigo o que penso, nesse pensar que é meu próprio, e que é tão solitário? Para:

www.anamariaribasbernardelli.com

Felizmente, temos também a fraseologia dos apenas humanos. Esses não misturam alhos com bugalhos. Só por isso, já contam com a minha compreensão. Um exemplo: “ Eu amo meu marido.” Ou “Eu amo minha mulher.”

Posso compreender, mas não posso deixar de comentar: olha só que patetice! Pois se a sujeita tem um homem como marido, e se esse marido a tem como mulher, seria por algum outro motivo que não o amor? O que mais deveria unir um homem e uma mulher: a conta bancária? os filhos? o comodismo? afinal, por quais motivos um ser humano precisa sair por aí anunciando que ama o parceiro, se isso deveria ser o óbvio ululante? Talvez porque não seja.

Outro dia, eu reconheci um homem inocente e puro, pela fraseologia do seu carro. As letras bordadas no painel diziam o seguinte: “ A FORÇA DA TUA INVEJA É A VELOCIDADE DO MEU SUCESSO.”

Esse foi curioso. Olhem os detalhes: ele viajava a 60 km por hora, e o carro estava usando toda a força dos seu cavalos de força: era um fusquinha hum mil novecentos e bolinha, caindo aos pedaços.

Mas enquanto os pedaços não caiam, o homem puro passeava com a mulher e os filhos, todos puramente assentadinhos e espremidinhos, como sardinhas em lata. Eu passei por eles, com a minha máquina, e enxerguei, só no banco traseiro, quatro pares de olhinhos que descobriam o mundo em alta velocidade. Contando mais dois, nos bancos da frente, temos seis: seis pessoas que me pareciam haver acabado de adquirir o direito de locomover-se, como se estivessem ao redor da mesa da cozinha: sentados. A paisagem apenas passando, em slow motion, e a emoção mais acelerada do que o motor daquele que, um dia, fora chamado de carro.

Esse tão puro do qual lhes falo, morador da roça que era, usava chapéu. E o vizinho dele, só tem uma carroça e é invejoso. Então, já se sabe a lógica da frase escolhida: “a força da tua inveja, é a velocidade do meu sucesso.” Fácil de ler, digerir e engolir: “Vai seu Zé, ser sucesso na vida com a força da inveja do seu Mané.”

Cheguei em casa, e escrevi a frase no mural de avisos, para não esquecer. Porque ali me nasceu essa crônica. Quatro dias depois, finalmente, Ivo, distraído como ele só, ou ocupado como sempre foi, veio perguntar o que significava aquilo que estava escrito em nosso mural de recados. E que me fazia rir, toda vez que passava por ali.

Nada não, Ivo. Significa apenas isso: Se eu fosse adepta do fraseologismo ambulante, as frases do meu carro diriam assim:

1- Propriedade exclusiva minha, porque comprei com o dinheiro do Ivo.
2- Deus é fiel com carrão, com carrinho, com carroça, com bicicleta, ou a pé.
3- Se eu amo, ou não amo meu marido, é problema meu. Cuide do seu.
4- Sua inveja, não me fede, nem me cheira: pode invejar à vontade.

Mas isso é porque sou revolucionária, reacionária, sublevadora, retrógada e porque não acompanho a modernidade dos meus pares.

Faz parte do chamado de mulher das cavernas. Das cavernas de Elias.


* Foto produzida pelo Alemão. Obrigada, alemão.

4 comentários:

By Maria disse...

Adorei....
Acredita que um dia desses via uma frase assim: DEUS ABENÇÕE ESSE LUGAR... Perfeito né, nada demais todos queremos bençãos, PORÉM a frase estava em um muro de feira onde havia vários Boxes, e tinha uma seta indicando o box que deveria ser abençõado...

Bjão

Tânia Marchezin disse...

Para ser sincera, a que mais me "irrita" é a Deus é Fiel. Utilizam-na com tanto descaso, mas acham que estão fazendo o bem.
O bem em usar o nome de Deus, é ajudar ao próximo, é dar um bom dia, um pequeno sorriso...
Claro que Deus é Fiel, ele nos deu o direito de conhecer este mundo...

Tânia Marchezin disse...

Minha querida amiga, obrigada pela gentileza e destaque no site, add tanto o link do site, quanto o do blog.
Super bjo no coração e um final de semana iluminado.

Lenon Mendes disse...

Muito bom o seu texto
gostei muito da temática
e eu nunca tinha parado para pensar sobre o assunto
Obrigado por ter visitado o Neurônio X e desculpa por não ter visto o seu blog antes, mas eu estava com um probleminha e não estava recebendo as notificações de comentários
mas eu já sou um frequentador fiel do seu blog de escritora
Parabéns pelo seu trabalho
Abraço