quarta-feira, 19 de novembro de 2008


Perdidos e achados.

A solidão pode ser tão desamparada quanto um cachorro que brinca no parque com uma bota velha. A solidão do cachorro, da bota e dos seres humanos é sempre desamparada. Até mesmo no supermercado, a solidão é uma condição desamparada.

Vê-se lá uma mulher com um carrinho cheio de compras, arroz feijão, óleo, macarrão, carne e pão, mas a condição desamparada não revela a fartura, revela a fome.

O alimento não impede a solidão. As pessoas em volta também não impedem a solidão. Nem mesmo o amor mais profundo impede a solidão. Há um estado de ser só, que se manifesta como um horrível dever. O dever de casa, e o dever da escola, e o dever do trabalho, e o dever do culto, e o dever de existir no mundo, todos eles comportando um único maior dever – o dever de existir de maneira solitária.

Então, foi assim: ela passou por mim e eu estava lendo o rótulo de um alimento. Ela fingiu que não me viu e eu fingi que não a vi. Numa conclusão precipitada alguns poderão dizer: “fingimento”. Outros mais benevolentes dirão: “ dissimulação.” Mas não. Nem fingimento, nem dissimulação, apenas respeito por outro ser idêntico. Da forma como um ser deficiente de qualquer eficiência respeita outro ser deficiente da mesma deficiência.

Há que se respeitar a solidão de outro ser solitário com a reverência dos que conhecem a solidão mais profunda. Poderíamos ter-nos cumprimentado da forma como fazem os seres repletos de vida coletiva. Mas o que faríamos com nossas frases sem miolo, ôcas, vazias de significado? Seríamos apenas sociais. E os seres portadores da síndrome da solidão mais profunda não podem ser resumidos a uma condição meramente social. As palavras para nós precisam ter sangue, e ter gemidos, e ter dores, e ter ais. Porque assim vivemos.

Por causa disso, eu a deixei ir embora, lentamente, empurrando o carrinho pesado da sua solidão. Fui para a fila do pão. Encontrei Reinildes que não sofre da síndrome e, com ela estabeleci a mínima compreensão. Que me resultou em grande aprendizado: aprendi que se pode comprar pão francês e conservá-lo no freezer. Que bastam 15 minutos fora do freezer para que o pão fique fresco como novo, reassumindo a sua crocância original.

Nem sempre a solidão é um bom negócio: conversando a gente aprende e se entende. Mas para quem sofre da síndrome da solidão mais profunda, a comunicação só se faz no laço. Ou na fila da padaria. Que lindo deve ser Olivier Anquier fazendo pão com aqueles olhos verdes que parecem sinalizar um caminho aberto para vida. Mas ainda prefiro Albert Camus com os seus olhos tristes.

Dali voltando para casa, com um saco de pão que dará para alimentar a casa toda, a semana toda, encontrei o cão. Meu Deus, que foi aquilo! Um cão brincando no parque com uma bota velha.

Eu não aguento um cão que brinca com uma bota velha. É demais para mim porque são duas coisas que me enternecem muitíssimo: os cães e as botas velhas. Ele estava diluido no verde do gramado e a bota estava pendurada na sua boca. O carro já estava parado e juro que nem fui eu quem parei: foi um ato falho. Os iguais procuram os iguais sem perceber que estão parando diante dos iguais. Olhei em volta e não havia ninguém. Por que não? Por que eu não poderia estabelecer com o cão e com a bota um papo altamente filosófico, digno da solidão de uma tarde de sábado, em véspera do dia de finados?

Eu tinha a solidão, uma sacola cheia de pães e todo o tempo do mundo: uma tarde comprida. O cão tinha a ele mesmo com a sua barriga vazia e uma bota que ele carregava de um lado para o outro como o seu tesouro.

Então desci e o contato se estabeleceu. Precariamente a princípio. Ele entendeu que eu poderia querer a bota em troca do pão, e deu um pouco de trabalho para que compreendesse que não, que eu não lhe tomaria a bota, e ainda assim lhe daria o pão. Que ele poderia ficar com os três: comigo, com a bota, e com o pão. É incrivelmente triste, como até no reino dos animais mais animais, existe o entendimento de que se eu lhe dou alguma coisa é porque vou exigir algo em troca daquela coisa.

A troca que eu queria era só a partilha de um breve momento. Eu não lhe exigiria muito e nem poderia lhe dar muito. Seria apenas um momento mágico: um parque vazio, eu, um cão, e uma bota velha.

Nem houve tempo de filosofar com a bota. O cão com sua natureza assustada de coisa viva, de coisa que tem rabo, foi tomado por um amor desmesurado que não lhe cabia no peito: ele latia. Que não lhe cabia nas pernas: ele tropeçava. Que não lhe cabia nele todo: ele pulava em mim. Mas não largava a bota velha. Esperei pacientemente que lhe passasse aquele breve momento de lucidez desamparada. Que doía. E então ele latia. E então eu esperava. E então ele tropeçava. E então eu sorria. E então ele pulou em mim e eu lhe ofereci o pão. No momento em que viu o pão, ele viu a vida. Comeu e matou a fome, mas a felicidade se lhe perdeu pelo vão dos dentes.

Um cão sem fome, teve reflexo imediato na solidão de uma bota velha. As coisas acontecem de forma reflexiva, as coisas em sua imensa grandeza. As coisas pequenas são circunscritas, mas as coisas em sua imensa grandeza, são como uma pedrinha atirada na superfície do lago: elas mexem com o lago todo. E depois que a pedrinha já atingiu o fundo do lago, ainda é possível ver na superfície as ondas. As ondas em círculos amplificados. Até que tudo fique estranhamente quieto e a vida volte a ser ainda mais silenciosa ali estão as ondas - as ondas em círculos amplificados.

Lembrei-me da máquina que estava na bolsa e tirei a foto. A foto mal tirada, escura como o dia escuro, que registra o momento, mas não registra a crueza do sentimento. Sentimentos são invisíveis, as fotos não revelam sentimentos. Apenas o olhar pode nos trair, e revelar o que se quer deixar oculto, mas o sorriso está ali para disfarçar e então uma coisa confunde a outra e nesse mundo de confusões ficamos todos devidamente confundidos. Que para isso também nascemos: para não ser exageradamente óbvios.

Olhei os dentes dele, do cão: eram branquíssimos, novos, sem tártaro - um cãozinho menino ainda. Que terá muitos dias de solidão pela frente. Muitos dias sem pão e sem bota. Mas com uma vantagem, em relação a nós os humanos muito humanos: o cão não tem consciência do quanto a vida pode ser comprida. E cruel.

O que pensei depois não pode ser contado em palavras. Porque o que pensei depois, não depende de descrição, mas de elucidação. E elucidar é muito mais do que escrever.

4 comentários:

Lenon Mendes disse...

Vai ser um prazer ter um texto meu como inspiração para as sua belíssimas palavras.
Adorei o seu último post.
Mais uma vez parabéns.
e eu gostaria de saber se você tem algum livro disponível ou somente os blogs mesmo.
Abraço

Airton Soares disse...

Abrahana,
Setembro passado você visitou minha página e teceu comentários sobre a frase-bordão "Que Deus nunca me livre dos livros.". Fiquei feliz com sua visita e por ter gostado da frase.

Peço compreensão pela demora na resposta.

Grande abraço
AS

Airton Soares disse...

“Há um estado de ser só, que se manifesta como um horrível dever.”
A meu ver é a frase-núcleo que permeia todo o texto. Ela me fez lembrar do mito Prometeu acorrentado, de Nietzsche e Schopenhauer. Ensimesmar-se, que “horrível dever”.

Perdidos numa noite, achados ao amanhecer com o fígado renovado. “Assim caminha a sôfrega humanidade” “em busca do tempo perdido”

Outra passagem que me chamou a atenção: “Mas o que faríamos com nossas frases sem miolo, ôcas, vazias de significado?” Melhor fingir que não se vê. Fingir respeitoso, provocador de solidão desejada.

Nas frinchas da solidão, a autora retira o cascalho em busca de di-amante, o saber dia...luz. E ao entrecruzar e interpenetrar os dois alimentos ( o pão pão e o pão paz..solidão profunda ), Ana vai-e-volta, volta-e-vai, buliçosamente remexendo - com riqueza de detalhes - a fornada da vida.
Parabéns. Belíssimo texto.

Uma aprendiz disse...

Oi, amigaaaa

te achei.

Acredita que só hoje li seu comentario no meu blogue?

Perdoe-me!

Já linkei o seu ao meu, agora não te perco de vista.kkkkkkkkkkkkkkk

beijos