domingo, 23 de setembro de 2007

ELES ESTÃO INDO EMBORA...


O nosso amigo, Zé Carlos, era dono de um apartamento de verão, em Balneário Camboriu. Nós também éramos, no mesmo prédio, mas em andares diferentes. As duas famílias encontravam -se no desfrute do ócio, todo verão. Eles ficavam 30 dias, nós ficávamos apenas 15. Eles chegavam alguns dias antes de nós. Apesar de não termos convivência, no resto do ano, tínhamos afinidades sociais durante esse período. As férias fazem dos humanos, seres sensíveis, educados, complacentes. Quase todo vizinho de férias é gente fina, encara a vida numa boa. Tudo é festa, leveza, humor e boa vontade. Era inevitável que nos encontrássemos na praia, toda manhã. Ele nos divertia muito, trazendo aperitivos em uma enorme caixa de isopor e contando histórias. O Zé tinha residência fixa em Botucatu( deve ter ainda), e era padeiro. Um empresário padeiro. Dono de uma rede de panificadoras, continuava botando a mão na massa, toda madrugada. Um empreendedor, vivendo a vida como se ainda fosse empregado. Muito trabalho, pouco descanso. Talvez por isso, valorizasse tanto as férias de final de ano. Ele, a mulher e os filhos, sempre desciam de ônibus para o litoral catarinense. Na garagem do prédio habitava, o ano todo, um jeep sem capota. Era o automóvel da família, na praia. Uma delícia. Por conta disso, no último dia de férias, quando precisavam ir até a rodoviária, era o Ivo quem cumpria o triste dever de fazer o transporte, em nosso carro, até o terminal rodoviário. Chegávamos no apartamento, uns 30 minutos antes e ficávamos observando o doloroso ritual da partida. Eu me lembro nitidamente do Zé, amarrando o tênis, de cara fechada, reclamando do aperto do calçado. A mulher dele dizia: "Zé, você usou esse tênis as férias inteiras e só agora está apertando?" E ele respondia, bem humorado : " pois é, cada um sabe aonde lhe aperta o tênis." E ria... mas o riso era triste. Como uma criança aborrecida, sem esconder a frustração, ele emendava com outra filosofia: "Ivo, fim de férias é igual casamento, marcou, chegou."

É 1 hora da manhã de segunda feira. Daqui a pouco, meus queridos acordarão e pegarão a estrada, de volta para casa. E na iminência dessa partida, estou como o Zé Carlos: achando graça nenhuma. Amarrando o tênis com mal humor. Trocando a havaiana por um tênis apertado, com chulé . A falta de graça é silenciosa, só entre eu e Deus. O resto da casa dorme. O Victor me abraçou, chorou um monte e depois me estreitou em seus braços, com toda a força do amor que sentimos um pelo outro. Esse menino nos ama de uma forma visceral. Conviveu diariamente conosco, durante apenas 9 meses, mas de alguma maneira, nos elegeu para essa qualidade de amor que a distância não consegue debelar. Eu não tenho sono. Como o Zé, fechando as malas, amarrando o cadarço do tênis, apagando as luzes do apartamento e reclamando emblematicamente da vida, eu também estou numa inconformidade silenciosa. Cumpri o ritual: fiz pão integral para a Sandra levar, preparei o lanche para a viagem, arrumei a mesa do café da manhã, mas há um tênis apertando o meu pé, fazendo um torquinete no meu coração e estrangulando as minha emoções. Eu não marquei férias e nem casamento. No entanto, o dia chegou. Tem gente que marca um período para as férias e tem gente que marca uma data para casamento. Mas tem gente que não marca, tem gente que é marcada. Alguém lá em cima -que eu amo muito e que me ama também- marcou tudo na minha vida e eu nunca tive o direito de optar por chegadas e partidas. Isso é amor. O amor de Deus. O animal que Deus escolhia para sacrifício no altar, também não tinha escolha. Deus pedia o melhor, mas o coitado do melhor era amarrado, arrancado do pasto, sangrado, esquartejado, esfolado e queimado: então subia como incenso suave. Tudo o que restava dele era o perfume. Eita perfume bom! Ser objeto do amor de Deus machuca, fere, corta, sangra, esquarteja e arruina os sonhos do animal. Um dia, eu fui criança, e depois fui adolescente, e depois fui mulher. Mas, não sei dizer, em que tempo eu me tornei um cordeiro. Ser objeto do amor de Deus vem exigindo que eu seja um cordeiro. Às vezes, esqueço que sou cordeiro e que cordeiro, morre mas não berra. E porque esqueço, berro. Perdi a identidade. De vez em quando, ofereço a minha vida para ser esquartejada. Mas, de vez em quando, quero minha vida de volta. Então, sou uma moça que ainda sonha. Sonho com uma linda casa, com um marido que me proteja, e com os filhos e netos ao redor da minha mesa. Mas Deus prontamente me diz que a minha casa é o céu, que meus filhos e netos são herança do Senhor e que o Senhor é meu único marido e é Ele quem me protege. Quando busco refúgio no Ivo e ele me falta, já sei que é Deus, com ciúmes de mim. Então me alegro, porque tenho um marido que tem ciúmes e cuida de mim. Em mim, há um paradoxo. Sou ovelha esquertejada e sou mulher.
Ainda sonho que estou brincando de casinha: eu sou a mãe, o Ivo é o pai, meus filhos são a Sandra, o Paulo e a Silvia, meus netos são o Victor e a Paulinha, filhos de Wanderley Carceliano, um presente de Deus. Num círculo mais amplo vejo meu pai, minha mãe, meus irmãos, meus sobrinhos. Acho que é Natal. Nos sonhos, eu não mudo nada, é sempre o mesmo natal. Todo mundo continua vivo e presente, sem rusgas, sem ausências, sem dores, identidades preservadas e congeladas num tempo em que tudo era festa. Mas quando acordo e olho em volta, vejo a saudade. Então, esperneio, berro e choro: sou gente! Sinto falta de reunir a família, em volta da piscina, e da churrasqueira. A piscina vive vazia e a churrasqueira sempre apagada. Tudo bem, não ligo para piscina e nem para churrasco. Mas ainda ligo para os sonhos. O que eu faço com os meus sonhos? Se em todos esses anos de vida, não consegui matar os sonhos, ou Deus faz um milagre, ou eu morro como um cordeiro, amarrado, sangrado, esquertejado, queimado, mudo e calado... com um tênis apertando o pé.

5 comentários:

Cláudia disse...

Querida Ana, que bela reflexão. Vc.me fez embarcar nas tuas palavras, numa deliciosa viagem. Fiquei pensando no cordeiro escolhido para o sacrifício, de fato,o melhor, a única exigência, e o aroma delicioso e suave que chegava aos céus. Agora, quem te disse que ele não berrava? Querida, o que é a nossa vida diante da eternidade? Tenho pensado muito sobre isto; enfim, que ela chegue aos céus, em cada momento dela, no dia a dia, nas férias compartilhadas, nas lágrimas incontidas, nas deliciosas gargalhadas dos filhos, no aconchego sensível dos avós e nos afagos dos netos, que realmente ela chegue aos céus como perfume agradável ao Senhor. Te Amo. Obrigada.

debynew777 disse...

Claudia disse tudo..não tenho quase nada a dizer.....Por mais que tento compreender,não dá....é mistério de DEUS,não sei se é aprendizado,lapidação,tratamento,sacrifício,provação,não sei a resposta,mas tenho fé,creio que DEus esta no controle e q Ele sabe de todas as coisas,que sabe o que esta fazendo,mesmo não entendendo,não aceitando,tenho fé...Peço sabedoria,visão espiritual pra poder desfrutar o tempo que tenho junto aos meus da melhor e mais intensa forma possível...
Ana querida,vão vir muuuiiitos outros finais de semana maravilhosos!!!!

Caroline Botan Ribeiro disse...

Bom, completando o que minha mae falou, entendo como eh grande a dor de um sacrificio, mas pense na dor do sacrificio maior, que foi de Jesus, o Cordeiro Santo, que se sacrificou por nos, em nosso luga.
Jesus esta conosco para nos confortar e acolher nossas lagrimas.

Abrahana disse...

Não sei se aqui é o lugar para responder à Cláudia, Deby e Caroline, mas como o blog é nosso a gente faz o que sente... hehehe... ah gente, amo todas vocês... amo vocês por que são parte da minha grande família espiritual e porque o Espírito que nos une, me faz desejar o dia em que estaremos todos juntos lá no céu... sintam-se amadas por mim, como eu me sinto amada por vocês.

Anônimo disse...

Por que nao:)